Pouso “caranguejo”e vento cruzado…

O que há de “estranho” nestas fotos de aterrizagem?

a) O avião voando desalinhado com a pista

b) Aviões inclinados de forma assustadora

c) Tem um caranguejo na pista

d) Todas as anteriores

e) Nada de estranho nem errado nas fotos

Se você escolheu qualquer alternativa que não tenha sido a “e”, leia este post até o final (ou talvez pense um pouco no que tem a ver um caranguejo com aviões). São fotos de aeronaves pousando em uma condição de vento cruzado ou vento de través (não preciso dizer que o caranguejo não está pousando nem está numa pista de pouso – pelo menos que eu conheça – ele está ali por motivos puramente didáticos). Vento cruzado ou vento de través é aquele que incide em um ângulo lateral ao sentido do voo ou da pista de pouso. Normalmente, nem sempre verdade por motivos dos mais variados desde a disponibilidade de terra até a presença de obstáculos como morros, as pistas dos aeroportos são alinhadas com o vento dominante (aquele mais comum naquela região). As aeronaves precisam decolar e pousar contra o vento, como já falei em outro post, a sustentação é baseada na velocidade do vento sobre as asas (e até um pouquinho da fuselagem). Assim, para decolar contra o vento, o avião teria que atingir a sua velocidade de decolagem + a velocidade do vento. O mesmo raciocínio se aplica para o pouso, se, por exemplo, o avião calcula o pouso a 190Km/h e tem um vento de cauda de 8Km/h, ele precisará desenvolver 198Km/h para manter a mesma sustentação (para os cientistas de plantão, omiti alguns outros componentes para facilitar o entendimento). Por isso, dependendo da direção do vento, as pistas operam em um sentido ou outro.

O ar é um fluído. Já escrevi sobre isto. Como tal, um avião se comporta de maneira muito parecida com um barco no mar. Quando em voo o avião recebe um vento de cauda, equivale a um barco navegando a favor da correnteza. Quando recebe um vento de frente, o raciocínio é o mesmo, aumentando o consumo de combustível ou o tempo da viagem. Quando o vento está lateral a aeronave, ocorre o que se chama de deriva. O avião está apontado para uma direção (o heading), mas, como toda massa de ar ao redor dele está se movendo lateralmente (o track), ele está “derivando” ou escorregando para o lado do vento. Os pilotos e os sistemas de navegação corrigem este movimento e tudo sai como o previsto. Quem já dirigiu em uma estrada com vento lateral já deve ter percebido que o seu carro “tentava” mudar de faixa (ou pelo menos indicava que estava querendo isto). Não importa o tamanho da aeronave, todos sofrem efeitos similares.

Quando o vento incide lateralmente, ele “empurra” a fuselagem para o lado (o avião apresenta resistência, como o barco na correnteza e seu carro na estrada com ventos fortes). Outro ponto, a sustentação é afetada pois uma asa “recebe mais vento” que a outra (a que está do lado do vento tem a sustentação aumentada e a que está do outro lado, tem a fuselagem para “atrapalhar” o fluxo de ar e, por isso, perde a sustentação). Aeronaves com winglets (aquelas asinhas para cima na ponta da asa) sofrem um pouco mais destes efeitos.

Cada aeronave é projetada e certificada para realizar pousos e decolagens com um certo limite de vento de través. Este limite estipula valores para o ângulo de incidência do vento e a sua velocidade. Acima destes limites, a aeronave deve arremeter (se já estiver em procedimento de pouso) e/ou ficar em espera até as condições melhorarem ou ainda alternar para outro aeroporto. Todo piloto aprende a realizar estes procedimentos durante o treinamento. Numa situação deste tipo, o piloto deve estar muito mais atento e alerta a necessidade de arremeter.

Duas técnicas são as mais conhecidas para pouso nestas condições: o pouso caranguejo (ou crablanding) e o pouso sideslip.

No crablanding, a aeronave se aproxima com o nariz apontado o mais na direção do vento possível (foto maior do Boeing 777 da Emirates). Assim, os efeitos de diferença na sustentação e deriva na direção do avião são minimizados. O avião parece estar “voando de lado”. Os passageiros de uma fileira de janelas observam a pista “chegando” na direção deles enquanto os que estão na outra fileira não irão observar a pista. Os pilotos mantém o avião nesta posição até muito próximo do solo, quando eles alinham a aeronave com a pista e a colocam no chão. Diferente de um pouso normal, neste tipo de procedimento deve se tocar o solo primeiro com as rodas que estão no lado do vento e depois as outras (portanto, não julgue como um pouso ruim quando isto acontece, é normal!). O nome pouso caranguejo vem justamente da impressão da aeronave estar se deslocando de lado, a exemplo da maneira como estes crustáceos (da infraordem Brachyura, como aquele da foto) caminham.

No sideslip, a asa que esta no lado de onde vem o vento (com mais sustentação) é inclinada para baixo (a que está do lado oposto ficará inclinada para cima) para gerar uma diferença de sustentação que atenue os efeitos do vento sobre as mesmas. A aeronave vem inclinada mas alinhada com a pista. No momento do toque, o piloto irá equilibrar a aeronave e tudo seguirá normalmente (entenda-se como normal um movimento de um lado para o outro que a aeronave pode fazer mesmo após tocar o solo, lembre-se, você está pousando com o vento empurrando para o lado o avião todo e, a todo momento, comandos de direção precisam ser dados para manter o avião alinhado na pista). Novamente, o esperado é que a aeronave toque o solo com um trem de pouso de cada vez.

Este tipo de pouso rende belos vídeos. Um dos aeroportos mais sujeitos a este tipo de situação é o aeroporto na ilha da Madeira. Procure no YouTube por “crosswind landings” ou “vento de través”. Observe, como eu comentei, que muitos deles terminam em arremetida (se a aproximação não está bem estabilizada, é melhor dar uma volta e tentar de novo).

Aproveite seu voo!!

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